Resenha – Kizazi Moto: Geração Fogo
Esta antologia de animação de ficção científica repleta de ação apresenta dez visões futuristas da África inspiradas nas diversas histórias e culturas do continente. Com produção executiva do diretor vencedor do Oscar, Peter Ramsey, essas dez curtas-metragens feitas por uma nova geração de criadores de animação se baseiam em perspectivas únicas africanas para imaginar mundos novos e corajosos de tecnologia avançada, conhecida, espíritos e monstros. Esta é a África como você nunca viu.
Resenha: Kizazi Moto: Geração Fogo é uma antologia de animação que mergulha o público em futuros africanos imaginados a partir de diferentes perspectivas, tradições e visões artísticas do continente. Produzida sob supervisão da Walt Disney Animation Studios , a obra reúne curtas dirigidos por cineastas africanos de diferentes países, cada um trazendo sua própria bagagem cultural para construir narrativas vibrantes e únicas.
O grande mérito da série é a forma como mistura ficção científica, mitologia e identidade cultural . Ao invés de reproduzir fórmulas ocidentais de futurismo, Kizazi Moto apresenta mundos em que tecnologia e ancestralidade coexistem — onde inteligências artificiais dialogam com espíritos, e naves espaciais se cruzam com tradições orais milenares. Essa fusão resulta em um afrofuturismo autêntico , que não apenas imagina o futuro, mas o faz a partir da ótica de povos que historicamente foram marginalizados em produções de grande alcance.
Visualmente, cada episódio se destaca com estilos de animação distintos : alguns optam por cores vibrantes e traços estilizados, enquanto outros caminham para uma estética mais sombria e realista. Esse mosaico artístico faz da antologia uma experiência variada e instigante, em que cada curta é uma surpresa tanto narrativa quanto estética.
Temas como identidade, legado, espiritualidade, colonialismo e liberdade atravessam os episódios, sempre envoltos em ação, emoção e crítica social. Apesar da pluralidade, há uma coesão no conjunto: todos apontam para a ideia de que o futuro africano não precisa ser uma cópia do futuro imaginado pelo Ocidente, mas sim uma criação própria, contendo raízes culturais e visões inovadoras.
Kizazi Moto: Geração Fogo é, portanto, mais do que entretenimento: é um manifesto artístico, uma celebração da diversidade cultural africana e uma oportunidade para o público global enxergar novas formas de contar histórias. Ao mesmo tempo em que dialoga com a grandiosidade da animação contemporânea, a obra planta sementes de reflexão sobre representatividade e sobre como imaginamos o futuro.
Veredicto: Uma antologia ousada, poética e visualmente impressionante, que abre espaço para vozes africanas no cenário internacional da animação. Um verdadeiro sopro de originalidade e identidade no gênero.
Dragon's Heaven (1988) Dirigido por Makoto Kobayash
Dragon's Heaven é um OVA (Original Video Animation) lançado em 1988 e dirigido por Makoto Kobayashi, um dos nomes importantes da animação japonesa nos anos 80 e 90. Este OVA é uma obra singular, que mistura elementos de ficção científica, mechas (robôs gigantes) e fantasia, e que deixa uma impressão duradoura pela sua estética visual ousada e pela proposta narrativa complexa. Embora sua trama não seja das mais detalhadas ou acessíveis, Dragon's Heaven brilha em sua execução visual e atmosferática, fazendo jus ao seu status de cult entre os fãs de animação.
Direção: Makoto Kobayashi
Estúdio: AIC
Ano de lançamento: 1988
Gênero: Ação, Ficção científica, Mecha
Duração: Aproximadamente 40 minutos
Enredo e Ambientação
Ao longo do OVA, os protagonistas enfrentam desafios em um ambiente pós-apocalíptico, lutando contra forças desconhecidas em um mundo onde a linha entre homem e máquina se torna cada vez mais tênue. O filme mergulha em uma atmosfera melancólica e, por vezes, filosófica, questionando o que significa a sobrevivência e a natureza de um mundo destruído pela violência.
Estilo Visual e Arte
Um dos maiores atrativos de Dragon's Heaven é sua impressionante animação e estilo visual. O design dos mechas é detalhado e exuberante, com influências que remetem aos tradicionais animes de mecha da época, como Mobile Suit Gundam, mas com uma abordagem mais estilizada e futurista. A batalha entre os gigantescos robôs e os cenários apocalípticos, repletos de ruínas e paisagens desoladas, criam uma atmosfera imersiva e visualmente impactante.
A direção de arte é claramente influenciada pelo trabalho de Yoshiyuki Tomino (diretor de Mobile Suit Gundam) e pelo estilo único de Yasuomi Umetsu em Meatball Machine e outras obras da época. O design de personagens e mechas de Dragon's Heaven apresenta uma combinação de formas orgânicas e mecânicas, com detalhes que dão uma sensação de movimento e vivacidade às máquinas, além de um trabalho detalhado no uso das sombras e da iluminação, criando um contraste dramático com o cenário apocalíptico.
Além disso, a paleta de cores é sombria e pesada, com tons de cinza, preto e vermelho predominando durante muitas das cenas de batalha, criando uma sensação de desolação que complementa o tom de fatalismo presente no enredo.
Música e Atmosfera
A trilha sonora de Dragon's Heaven também se destaca. Composta por Keiichi Oku, a música é sombria e ambiental, complementando perfeitamente a atmosfera melancólica do OVA. As faixas de ação são energéticas e ajudam a intensificar as sequências de batalha, enquanto as melodias mais suaves proporcionam uma sensação de introspecção durante os momentos mais contemplativos, quando os protagonistas questionam suas próprias motivações e as implicações de suas ações.
A música tem um papel fundamental em acentuar a sensação de solidão e desesperança que permeia o mundo pós-apocalíptico do OVA. Ela não apenas serve como fundo para a ação, mas também ajuda a enfatizar o conflito interno dos personagens e o peso emocional das escolhas que fazem.
Narrativa e Personagens
A narrativa de Dragon's Heaven, embora interessante, não é tão acessível ou linear quanto outras produções do mesmo período. O enredo é simples em sua premissa – dois guerreiros em um mundo devastado lutam para sobreviver – mas a construção da história é mais focada nas emoções e no simbolismo do que em uma trama explícita e desenvolvida. Isso pode ser uma barreira para quem busca uma história clara e coesa.
Os personagens, especialmente Jin e Tetsuya, são arquétipos típicos de heróis de guerra: destemidos, corajosos e capazes de sacrifícios pela sobrevivência. No entanto, sua falta de desenvolvimento mais profundo pode fazer com que o público se distancie um pouco deles. A relação deles com as máquinas e com o mundo ao seu redor é a principal força motriz da narrativa, e o conflito emocional de ambos é explorado de forma indireta, por meio das suas interações e das situações extremas em que se encontram.
Conclusão
Dragon's Heaven é um OVA que se destaca mais pelo seu estilo visual arrojado e sua atmosfera única do que pela profundidade de sua história ou desenvolvimento de personagens. É uma obra que, para muitos, pode ser difícil de compreender ou até um pouco vaga em sua narrativa, mas ao mesmo tempo, oferece uma experiência sensorial imersiva e uma reflexão sobre a guerra, o sacrifício e o poder da criação.
Apesar de sua complexidade e da falta de explicações diretas, o OVA conquista pela sua arte impressionante, sua música marcante e pela maneira como combina temas de ficção científica e fantasia de uma forma inesperada. Para os fãs de mecha, ficção científica e animação dos anos 80, Dragon's Heaven se torna uma obra cult a ser apreciada pelas suas inovações visuais e pela atmosfera única que constrói.
Nota: 7/10
Dragon's Heaven é uma obra que vale a pena ser assistida não apenas pelos aficionados por mechas, mas por qualquer um que busque uma experiência visualmente arrebatadora e uma história profunda, ainda que um pouco fragmentada, sobre os limites entre o humano e o mecânico.
Crítica: “Living Large (Vivendo Grande) ” explora os efeitos da gordofobia na adolescência (Annecy 2024)
Living Large, filme stop motion da diretora Kristina Dufková, conta a história de Ben (voz de Tyler Gray), um adolescente de 12 anos que adora estar com os amigos, se dedicar à banda, cozinhar pratos deliciosos (que é É muito bom para ele) e coma. Um dia, a enfermeira da escola o diagnostica como tendo obesidade grau II. Isso não só leva a provocações por parte dos colegas, mas também a micro agressões por parte de professores e pais. Ansioso por mudar (e talvez fazer com que a garota dos seus sonhos goste dele), Ben faz dieta, mas isso não parece deixá-lo muito feliz.
A gordofobia é um tema muito delicado e importante de sinalizar, sobre tudo em crianças e adolescentes, quem chega a sofrer perto da escola ou até mesmo em casa devido a este tema, como o caso recente de uma criança de 6 anos que morreu devido a seu pai o força a exercitar-se por “estar muito gordo”. Nos filmes e séries (às vezes até de forma inconsciente) o peso é tratado como algo digno de ridicularizar, se converte em motivo de burla ou asco, como em Wonka ou The Whale. Living Large realmente sinaliza essas atitudes agressivas por parte da sociedade e do círculo cerca o jovem no decorrer do tema..
Tanto a enfermeira como o professor de educação física abordam a situação de uma perspectiva de advertir a criança, recompensá-la e culpá-la pela falta de atividade física. Por outro lado, seus pais, em sua preocupação, eles recriminam qualquer coisa que você venha e em vez de perguntar como se sente, se concentram em dizer que será “muito mais saudável” uma vez que você, qual, resumido ao mesmo tempo escolar por seu peso, não há mais que afetar mais e mais ao jovem.
O filme utiliza cenas animadas em 2D que nos envolvem nos pensamentos do protagonista, tanto seus medos quanto suas fantasias, para entender como se vê afetado por esta situação. Também há sequências em que a comida é mostrada muito angustiante para expressar o amor do garoto pela comida, sem atanazá-lo ou retratá-lo como algo horrível, as quais contrastam com outras partes mais obscuras onde ocorrem ansiedade ou sentimentos negativos.
Quanto ao estilo de animação, o diretor utiliza principalmente o stop motion com marionetes, técnica tradicional do cinema checo (país de onde é o filme). Com sequências variadas que vão desde a vida em casa até os jovens brincando na varanda ou literalmente pelas nuvens, com elementos como neve, animais e burbujas, há um bom olho nos detalhes de cada elemento, assim como um trabalho de fotografia cuidadoso para aproveitar o trabalho dos animadores. O equipamento se concentrou em cuidar muito da expressividade das marionetes: o design dos personagens é divertido e muito criativo, todos têm traços distintivos para torná-los memoráveis à vista.
O ritmo é leve, leve a sério o tema, sem cair na solenidade e fazendo-o semelhante para audiências jovens que poderiam estar passando pelo mesmo: há humor, um toque de romance, canções divertidas para nos mostrar a paixão musical de Ben e até mesmo um divertido monitor. O final é um pouco abrupto em sua resolução, mas dá uma mensagem importante para pais e adolescentes.
Living Large trata de um tema importante com empatia, animação engenhosa e personagens com as quais é fácil de carregar. Sua mensagem a pessoas passando por esta situação é tratada com tatuagem sem nunca ser didática e deixar o foco na jornada de seu protagonista. Kristina Dufková nos trás um trabalho entretido e relevante para crianças e adultos por igual, quem quiser ver, esperemos, podemos aprender várias coisas sobre como abordar este tema sem chegar a outros.
“Living Large” estreia mundial na seção Longas-metragens Contrechamp do festival de Annecy 2024.